A cidade e as suas linhas riscadas no céu. Outra vez, eu vejo Stella caminhar oferecendo ao vento o balançar do seu vestido, com aquele mesmo ar desencontrado. O cortar das ruas a faz querer guardar a cidade dentro de si. Como um refúgio para si mesma. Stella já partiu outras vezes, já chegou outras vezes, já aportou. Outras vezes.
Ela desvenda Amsterdam com olhos de garota. A estação de trem principal e suas direções todas. E já não sabe definir se o ar aqui é mais leve, ou mais pesado, de que substância o ar é constituído, agora. As vitrines e suas palavras incompreensíveis. Stella gosta de palavras, quanto maiores melhor. As vitrines se sucedem até o Red Light District, onde as vitrines refletem os seus olhos, em cada puta escancarada sorrindo um sorriso que Stella aprendeu faz tempo. Stella decide que nunca será uma puta em Amsterdam, porque Stella não quer viver de espera, e as vitrines são turvas visões de putas esperando caladas, sofrendo caladas. Elas e seus sorrisos.
Stella gosta de andar pela cidade. A cidade tem um ar que Stella agora resolveu chamar de. Mas não é isso ainda. Stella gosta particularmente de andar de metrô em Amsterdam, porque os trens atravessam o resíduo espacial e revelam os canais e não saem do chão. Não há de se subir escadas para se pegar o metrô de Amsterdam. Stella tem chão.
No desenrolar das esquinas, Stella quer o emprego da vitrine do bar. Mas Stella não quer mudar de vida, não quer ter que recomeçar. Stella não aguenta mais. O cansaço do mundo grudou todo no solado de Stella, e ela não sabe mais. Qual a substância do ar?
Sunday, 26 October 2008
Tuesday, 14 October 2008
E(ssa) Cidade
Primeiros dias
A vista do aeroporto de Salvador é mesmo um sinal de boas-vindas. Bambus se entrelaçam, cobrindo o céu, conduzindo-nos até o extremo final que nos faz querer respirar o ar fresco da cidade numa noite de primavera. É o sinal que preciso para saber que estou em casa.
A casa brinca comigo, me sinto uma criança perdida. Já não sei onde se guarda as coisas, ou as coisas se guardam em outros lugares. Uma mistura de estranhamento e memória. Saio, à noite, as ruas parecem desgastadas, as pessoas de repente me parecem todas iguais. Quero dançar e me restam poucas opções em Salvador. Lá, onde vou, o único lugar que me diz nesta noite, já não me sinto parte de nada – eu acho que nunca me senti parte; preciso de doses de alcool para adormecer o pensamento.
Talvez estes quatro anos morando no exterior tenham me dado algo que eu não sei contar. Os meus grandes amigos se mandaram também, e os poucos conhecidos com quem esbarro pelo caminho, mal querem papo. Não estou certo se intimido ou desagrado. Mas eu nunca estive tão confortável com o fato de ser quem sou.
Andando pela Barra, vendo a orla se revelar, acho tudo muito bonito e triste. A cidade deixou de ser minha no dia em que pisei aqui, desde sábado passado. Os meus gestos, valores, modo de agir e pensar refletem outra cultura. Estranho esta completa distância, o fato de ver uma cidade se movimentando no seu dia-a-dia de longe, e isto permite que eu entenda quem fui, as minhas motivações mais básicas, padrões de reações. O meu estranhamento passado, quando eu vivia aqui e não era nada disso. E era tão isso e não sabia.
A cidade e eu estabelecemos uma relação infantil, que me faz lembrar de uma música boba que diz assim ‘I keep falling in and out of love’. Às vezes, penso que morar aqui de novo seria o maior barato. Provar da sua alternatividade, ter a companhia de pessoas que adoro, estar à parte do que não interessa, dançar seu ritmo nervoso, a sua necessidade de congruência presente numa geração que cresce a meia-luz.
Outras, quando deparo com a suas deficiências, o seu antiquado modo, a sua dependência dos EUA, a sua ligação excessiva a super-estruturas, como religião e tradições passadas, me fazem querer correr para o aeroporto. Tento, em vão, ver a Cidade como uma anfitriã que me recebe de braços abertos, e curtir os dias sem análise, crítica ou opinião. Ainda bem que nada é tão urgente assim, que ninguém me ouve.
Deixe a Cidade seguir sem mim.
A vista do aeroporto de Salvador é mesmo um sinal de boas-vindas. Bambus se entrelaçam, cobrindo o céu, conduzindo-nos até o extremo final que nos faz querer respirar o ar fresco da cidade numa noite de primavera. É o sinal que preciso para saber que estou em casa.
A casa brinca comigo, me sinto uma criança perdida. Já não sei onde se guarda as coisas, ou as coisas se guardam em outros lugares. Uma mistura de estranhamento e memória. Saio, à noite, as ruas parecem desgastadas, as pessoas de repente me parecem todas iguais. Quero dançar e me restam poucas opções em Salvador. Lá, onde vou, o único lugar que me diz nesta noite, já não me sinto parte de nada – eu acho que nunca me senti parte; preciso de doses de alcool para adormecer o pensamento.
Talvez estes quatro anos morando no exterior tenham me dado algo que eu não sei contar. Os meus grandes amigos se mandaram também, e os poucos conhecidos com quem esbarro pelo caminho, mal querem papo. Não estou certo se intimido ou desagrado. Mas eu nunca estive tão confortável com o fato de ser quem sou.
Andando pela Barra, vendo a orla se revelar, acho tudo muito bonito e triste. A cidade deixou de ser minha no dia em que pisei aqui, desde sábado passado. Os meus gestos, valores, modo de agir e pensar refletem outra cultura. Estranho esta completa distância, o fato de ver uma cidade se movimentando no seu dia-a-dia de longe, e isto permite que eu entenda quem fui, as minhas motivações mais básicas, padrões de reações. O meu estranhamento passado, quando eu vivia aqui e não era nada disso. E era tão isso e não sabia.
A cidade e eu estabelecemos uma relação infantil, que me faz lembrar de uma música boba que diz assim ‘I keep falling in and out of love’. Às vezes, penso que morar aqui de novo seria o maior barato. Provar da sua alternatividade, ter a companhia de pessoas que adoro, estar à parte do que não interessa, dançar seu ritmo nervoso, a sua necessidade de congruência presente numa geração que cresce a meia-luz.
Outras, quando deparo com a suas deficiências, o seu antiquado modo, a sua dependência dos EUA, a sua ligação excessiva a super-estruturas, como religião e tradições passadas, me fazem querer correr para o aeroporto. Tento, em vão, ver a Cidade como uma anfitriã que me recebe de braços abertos, e curtir os dias sem análise, crítica ou opinião. Ainda bem que nada é tão urgente assim, que ninguém me ouve.
Deixe a Cidade seguir sem mim.
Tuesday, 7 October 2008
2nd class stamp
Dear Ana,
Resolvi, desta vez, percorrer outros caminhos, fugir das cidades grandes, destes aglomerados de seres apressados. Ficarei estes dias só na Bahia, vendo o pôr-do-Sol do Farol e as estrelas da noite de ontem. Depois, irei ao Sertão, buscar a simplicidade em si.
Não me aguarde para o café ainda, apesar de maturar em mim um desejo de ir-me para Sampa de vez. Sinto que a hora não é agora. Londres está me seduzindo com outros ares que respiro hipnotizado sem pensar ao sair do trabalho e subir a Portobello Road.
Tomei banho de mar hoje após dois anos. Essa pele nova que se apodera de mim é tão auto-explicativa que até me assusta. Parece que agora eu me entendo, pescando frases soltas no ar, corredores de opiniões alheias e olhos estranhos.
Eu vim aqui porque aonde quer que eu more agora, eu vou morar em mim. Um ser aprisionado em si mesmo.
Resolvi, desta vez, percorrer outros caminhos, fugir das cidades grandes, destes aglomerados de seres apressados. Ficarei estes dias só na Bahia, vendo o pôr-do-Sol do Farol e as estrelas da noite de ontem. Depois, irei ao Sertão, buscar a simplicidade em si.
Não me aguarde para o café ainda, apesar de maturar em mim um desejo de ir-me para Sampa de vez. Sinto que a hora não é agora. Londres está me seduzindo com outros ares que respiro hipnotizado sem pensar ao sair do trabalho e subir a Portobello Road.
Tomei banho de mar hoje após dois anos. Essa pele nova que se apodera de mim é tão auto-explicativa que até me assusta. Parece que agora eu me entendo, pescando frases soltas no ar, corredores de opiniões alheias e olhos estranhos.
Eu vim aqui porque aonde quer que eu more agora, eu vou morar em mim. Um ser aprisionado em si mesmo.
Thursday, 2 October 2008
Mensagem para a minha família
Hi Guys,
Hope all is well. I have been looking up the details for arrival and the scheduled time is shown as 17:45. I won't have a penny, cause all my cash will be in GPB. So if you could take 2 Reais with you to buy me an Acarajé, I would be sooo glad, I could weep. Hehehe
Love,
Breno
Hope all is well. I have been looking up the details for arrival and the scheduled time is shown as 17:45. I won't have a penny, cause all my cash will be in GPB. So if you could take 2 Reais with you to buy me an Acarajé, I would be sooo glad, I could weep. Hehehe
Love,
Breno
Sunday, 28 September 2008
Contra-tempo
Acordei hoje e me abate a sensação de que algo ficou para trás. Leve, o ritmo da vida se expande como se tudo retornasse ao ponto original. Houve um tempo em que duvidei que aquele lugar no espaço significasse algo que agora quase posso tocar. Como se concreto ou real.
Com o final do mestrado, e uma tese em que precisei usar os meu dotes de design gráfico para tornar interessante, e me desculpar pela falta de pesquisa – que deve ter sido maior do que a maioria dos colegas, mas é pouco para mim – os dias ganham uma amplitude que já desconhecia. Acordei e nada havia de ser feito, razão nenhuma para estudar, ou o-que–quer-seja. Era só este pleno e amplo vazio do momento atual que nos faz pensar. E pensar é bom.
Abri o meu portifólio, abandonado numa gaveta, e reli as minhas palavras de redator de publicidade. Olhos muito atentos. E de repente, pensei na fluência das frases se conectando, o tom crescendo e variando, entre as objetividades e requerimentos de cada campanha. E pensei quase surpreso que aquilo era bom, muito bom, que eu nunca estive muito enganado sobre este dom, este instinto, esta linha de pensamentos que correm dos meu dedos para o teclado. E, claro, senti saudade de mim.
Quando era redator, uma vaga sensação de que aquilo não era trabalho, emprego, carreira, me assombrava. Parecia-me mais um contra-tempo, porque eu pouco lia sobre marketing, e eu tentava transformar os textos em algo puramente bem escrito, altamente bem escrito. E eu não sabia um quinto do que agora eu sei, e ainda assim questiono se não daria tudo no mesmo, se o foco importará mais do que a sedução em si, a sedução da idéia e sua execução.
Resolvi que quando chegar ao Brasil, imprimirei as traduções e adaptações de propganda que realizei. Montar um novo portifólio e esperar que o destino me leve daqui, talvez num navio que passe por Barbados e onde eu possa me sentir sozinho, antes de me reencontar. Andando pelas ruas de Fulham na madrugada da quinta-feira passada, compus uma oração de mim mesmo que começava assim:
Permita que eu nunca me perca de mim
Que eu não me afaste de mim
Que eu esteja comigo
Que eu me encontre todos os dias
Desde a manhãzinha até o anoitecer.
Que eu não me abandone mais
Porque eu preciso de mim comigo.
Enfim, um texto que já escapoliu da memória e que eu não passei para o papel porque eu sou um bobo. E é um texto sobre andar perdido de si.
Lendo algo que um amigo mostrou, veio-me este impulso de querer escrever de novo, de me entender e me explicar para mim mesmo em palavras. Porque eu quis mudar o texto, mover os adjetivos, fazê-lo crescer, e fechar. Eu penso que pela primeira vez me dei conta que não é tão fácil escrever, transpassar os medos, expor-se e ser profissional. Acho que foi a Clarice que disse que não queria ser escritora depois de escrever um tanto de livros. E ela se referia ao engomo, ao processo de vaidade e falta de vivência que leva alguns escritores a serem mais-do-mesmo e regurgitar. Eu tenho medo disto. E eu sou outra pessoa.
Conversando com ele, me dei conta de que eu devo ser um escritor, pelos palpites, pelo olhar, pelo instinto. Há algo em mim que sempre vai estar lá. Eu sei. Só que me recuso a escrever, pois eu não sei me expor mais, eu envelheci. Acho que foi isto, o ímpeto.
Arrumei o quarto como há tempos não, cortei o cabelo, botei a roupa toda para lavar. O quarto continua meio bagunçado. O cabelo curto pede que eu faça a barba, que resiste. E as roupas se pintaram de outra cor após serem lavadas com uma calça preta que destinturou. Preciso decidir se ganhei um guarda-roupa novo, ou perdi. A bermuda caqui pintou-se azul, a toalha amarela, de verde, a camiseta branca e rosa, de cinza e rosa. As cores da minha vida são outras, eu não as convidei, mas elas me fazem querer escrever, de novo, como se fosse preciso, como se fosse a única coisa que faz sentido agora.
Um livro sobre mim. Eu longe de mim perdido neste mundo dos outros.
(Para ler ao som de The First Time Ever I saw your face, cantada por Leona Lewis).
Com o final do mestrado, e uma tese em que precisei usar os meu dotes de design gráfico para tornar interessante, e me desculpar pela falta de pesquisa – que deve ter sido maior do que a maioria dos colegas, mas é pouco para mim – os dias ganham uma amplitude que já desconhecia. Acordei e nada havia de ser feito, razão nenhuma para estudar, ou o-que–quer-seja. Era só este pleno e amplo vazio do momento atual que nos faz pensar. E pensar é bom.
Abri o meu portifólio, abandonado numa gaveta, e reli as minhas palavras de redator de publicidade. Olhos muito atentos. E de repente, pensei na fluência das frases se conectando, o tom crescendo e variando, entre as objetividades e requerimentos de cada campanha. E pensei quase surpreso que aquilo era bom, muito bom, que eu nunca estive muito enganado sobre este dom, este instinto, esta linha de pensamentos que correm dos meu dedos para o teclado. E, claro, senti saudade de mim.
Quando era redator, uma vaga sensação de que aquilo não era trabalho, emprego, carreira, me assombrava. Parecia-me mais um contra-tempo, porque eu pouco lia sobre marketing, e eu tentava transformar os textos em algo puramente bem escrito, altamente bem escrito. E eu não sabia um quinto do que agora eu sei, e ainda assim questiono se não daria tudo no mesmo, se o foco importará mais do que a sedução em si, a sedução da idéia e sua execução.
Resolvi que quando chegar ao Brasil, imprimirei as traduções e adaptações de propganda que realizei. Montar um novo portifólio e esperar que o destino me leve daqui, talvez num navio que passe por Barbados e onde eu possa me sentir sozinho, antes de me reencontar. Andando pelas ruas de Fulham na madrugada da quinta-feira passada, compus uma oração de mim mesmo que começava assim:
Permita que eu nunca me perca de mim
Que eu não me afaste de mim
Que eu esteja comigo
Que eu me encontre todos os dias
Desde a manhãzinha até o anoitecer.
Que eu não me abandone mais
Porque eu preciso de mim comigo.
Enfim, um texto que já escapoliu da memória e que eu não passei para o papel porque eu sou um bobo. E é um texto sobre andar perdido de si.
Lendo algo que um amigo mostrou, veio-me este impulso de querer escrever de novo, de me entender e me explicar para mim mesmo em palavras. Porque eu quis mudar o texto, mover os adjetivos, fazê-lo crescer, e fechar. Eu penso que pela primeira vez me dei conta que não é tão fácil escrever, transpassar os medos, expor-se e ser profissional. Acho que foi a Clarice que disse que não queria ser escritora depois de escrever um tanto de livros. E ela se referia ao engomo, ao processo de vaidade e falta de vivência que leva alguns escritores a serem mais-do-mesmo e regurgitar. Eu tenho medo disto. E eu sou outra pessoa.
Conversando com ele, me dei conta de que eu devo ser um escritor, pelos palpites, pelo olhar, pelo instinto. Há algo em mim que sempre vai estar lá. Eu sei. Só que me recuso a escrever, pois eu não sei me expor mais, eu envelheci. Acho que foi isto, o ímpeto.
Arrumei o quarto como há tempos não, cortei o cabelo, botei a roupa toda para lavar. O quarto continua meio bagunçado. O cabelo curto pede que eu faça a barba, que resiste. E as roupas se pintaram de outra cor após serem lavadas com uma calça preta que destinturou. Preciso decidir se ganhei um guarda-roupa novo, ou perdi. A bermuda caqui pintou-se azul, a toalha amarela, de verde, a camiseta branca e rosa, de cinza e rosa. As cores da minha vida são outras, eu não as convidei, mas elas me fazem querer escrever, de novo, como se fosse preciso, como se fosse a única coisa que faz sentido agora.
Um livro sobre mim. Eu longe de mim perdido neste mundo dos outros.
(Para ler ao som de The First Time Ever I saw your face, cantada por Leona Lewis).
Saturday, 9 August 2008
Essa calma
De onde vem essa calma que eu desconheço? Por que será que de repente eu me olhei no espelho e me vi, tão real, os olhos quase tímidos diante de mim mesmo? Os dias frios ou quentes, neste verão sem memória, de Sol banhado pelo vento do Oeste que sempre me faz pensar nas pontes quando anoitece.
Um caminhar pisando em cada pedra esquecida nas ruas, o ar quase convidativo de todas as portas que se abrem, o meu sorriso. Memórias que se corrigem, e eu vi você, e nada mudou, e o meu olhar apontado como uma lança que busca projetos de longo-prazo, uma serenata de fatos tão entrelaçados que nem sequer ouso questionar. Existe mesmo este papo de destino?
Hoje amanheceu chovendo, eu quis te contar. E quis dizer que recusei todos os convites para sair, eu quis estar só. Agora eu me lembro como éramos bons amigos, eu e a minha solidão, o exercício da minha própria personalidade. Agora, que o desespero perdeu o seu lugar. Leve é um adjetivo que eu sempre cultivei.
Outros tempos. Volto a dar a mão a minha solidão, bem-vinda. Acordo, tomo um banho na sua casa, seja você quem for, e me vou. Para os braços da minha amada, a minha solidão. A solidão de quem espera pelo pôr-do-Sol atrás do seu próprio eu, o meu de-dentro. Eu comigo mesmo, porque esse papo de amor é mesmo coisa de cinema, não?
‘Vou deixar a rua me levar, ver a Cidade se acender’.
Um caminhar pisando em cada pedra esquecida nas ruas, o ar quase convidativo de todas as portas que se abrem, o meu sorriso. Memórias que se corrigem, e eu vi você, e nada mudou, e o meu olhar apontado como uma lança que busca projetos de longo-prazo, uma serenata de fatos tão entrelaçados que nem sequer ouso questionar. Existe mesmo este papo de destino?
Hoje amanheceu chovendo, eu quis te contar. E quis dizer que recusei todos os convites para sair, eu quis estar só. Agora eu me lembro como éramos bons amigos, eu e a minha solidão, o exercício da minha própria personalidade. Agora, que o desespero perdeu o seu lugar. Leve é um adjetivo que eu sempre cultivei.
Outros tempos. Volto a dar a mão a minha solidão, bem-vinda. Acordo, tomo um banho na sua casa, seja você quem for, e me vou. Para os braços da minha amada, a minha solidão. A solidão de quem espera pelo pôr-do-Sol atrás do seu próprio eu, o meu de-dentro. Eu comigo mesmo, porque esse papo de amor é mesmo coisa de cinema, não?
‘Vou deixar a rua me levar, ver a Cidade se acender’.
Friday, 1 August 2008
Rotina
Todos eles choram sobre mim. As suas cartas chegam, inúmeras, lotando o quadrado que está sempre à minha frente. Lamentações do homem moderno, gente sem rosto, urgências que não me afligem, nem comovem. As suas lamentações inundam meus dias. Meus dedos tentam ser mais rápidos que os deles. Eles sempre me ultrapassam. Sempre espalhando os seus pedidos nos meus correios. Chovem cartas ao invés de gotas, no escritório cinza.
Vez ou outra, me occorre lembrar que para toda pergunta deles, há uma resposta em algum canto. O homem moderno me incomoda porque carrega consigo a preguiça dos impacientes, o vício do serviço ao usuário, um desperdício. Há uma sessão chamada FAQ – Frequent Asked Questions, e lá encontram-se todas as respostas do mundo. É como um dicionário da estupidez alheia. Eu leio as cartas, as suas palavras se repetindo, uma melodia triste e apoteótica para os meus ouvidos cansados. Please, it’s urgent.
Vida de serviço ao usuário, é só parte das minhas funções, mas, ah, como me tira a paciência. O ser humano demandista, o ser humano, o ser.
Vez ou outra.
Vez ou outra, me occorre lembrar que para toda pergunta deles, há uma resposta em algum canto. O homem moderno me incomoda porque carrega consigo a preguiça dos impacientes, o vício do serviço ao usuário, um desperdício. Há uma sessão chamada FAQ – Frequent Asked Questions, e lá encontram-se todas as respostas do mundo. É como um dicionário da estupidez alheia. Eu leio as cartas, as suas palavras se repetindo, uma melodia triste e apoteótica para os meus ouvidos cansados. Please, it’s urgent.
Vida de serviço ao usuário, é só parte das minhas funções, mas, ah, como me tira a paciência. O ser humano demandista, o ser humano, o ser.
Vez ou outra.
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