Saturday, 12 September 2009

casa nova!

bye Blogger, hello WP.

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Thursday, 9 July 2009

Dear Miss A,

Desculpa pela demora em responder. A Cidade corre tanto.

Ouvi dizer que há uma necessidade absoluta de palavras rasbiscadas por outras mãos para que possamos enfim compreender as nossas. Dizem tanta coisa e, vez ou outra, quase acredito.

Embora escorressem verdades pelos meus dedos no teclado, embora houvesse naquele discurso um resquício de necessidade de auto-convencimento, a outra verdade é que eu quis me desculpar. Porque perdi o ímpeto de voar, de mudar tudo, de desaparecer, porque não sou mais o tal ‘comprador de cigarros’. Preciso de chão. E o chão não pode ser mais aquele que invento. Preciso sentir que sou um pouco dono do meu destino agora, embora pense que são as pessoas donas do seu destino as menos livres.

Por favor, não sinta nada que não caiba estampada numa camisa CMYK, qualquer das 4 cores, não há porquê. Acredito que a telepatia exista nos nossos papos, nas nossas linhas. Fiquei grato pelo convite, pelo despertar de possibilidades quando tudo está tão certo e comum. Por isso, quis pedir desculpas, porque precisava me desculpar a mim mesmo também.

Lendo as suas palavras, acho que você despertou algo que já não lembrava. Eu não quero me adaptar a lugar algum. Nos momentos que mais me sou aqui, sou aquele que não está nem aí. Eu sou aquele rapaz que observava a atendimento da agência chegar com as campanhas reprovadas porque a idéia era muito anti-convencional e a cidade pequena e triste. É claro que morando fora, ser o ‘outsider’ é mais fácil e mais difícil, porque os caminhos são subitamente reduzidos e a gente não sabe nadar sem parar e respirar.

Eu acho que foi isso que busquei, uma volta a mim mesmo. Do lado de lá do oceano, tudo me parece um pouco mais possível, as cidades me parecem possíveis. Do lado de cá, perco um emprego porque me dizem que tenho perfil de escritor. Há maneira mais nobre de ficar ‘desempregado’? (Embora isto tenha gerado uns freelas).

É claro que quis estar com você também, dividindo estórias que eu poderia imprimir e largar na sua mesa, com um bilhetinho escrito ‘Que tal?’ e passar uma noite ansioso por uma opinião. Obviamente que sim.

NY e seis meses mais são um enigma. Tão grande quanto o porque não decoro a casa, não compro um gato ou porque toda vez que compro um livro carrego a sensação de que não terei como levá-los aonde quer que seja. Os livros já são muitos e a estante pequena.

Chegou uma notícia estes dias de que uma outra pessoa atravessará um outro oceano daqui a alguns dias. Cidadãos do mundo, querida. Me dá arrepios só de pensar que isto também se traduz em uma outra distância. Será que um dia todos nós nos reencontramos?

Um beijo,

Mr B.

Friday, 3 July 2009

Dear Miss A,

Sinto tanto por não ter ido ao seu encontro. Queria poder dizer-lhe que o que me impediu foram os cinco anos passados aqui, contados em uma mão só, como se o fato de sentir que a minha vida anda por cá, não poderia ser assim abandonada em uma semana de malas prontas. Mas é mentira.

Fez-me pensar que nada me prende aqui. Senti-me tão perdido. Tão abandonado de mim.

A cidade está em mim agora de uma forma inexplicável. Horas, como se todas as ruas estivessem decoradas com bandeiras de São João numa infância infinita, e outras, como se numa primavera de flores muchas e jardins ao léu.

Aninha, a verdade é que acabei perdendo o vôo por causa da entrevista. Um fato banal decidiu o destino. Fiquei com sono quando o diretor de criação não apareceu e cansei de olhar para o Skype. Imagino que a reunião tenha se extendido e as horas por cá, percebendo a malevolência do vento, passaram a se arrastar e puxar as minhas palpebras para baixo.

Dito isto, a verdade é: não fui ao encontro porque fiquei com sono. Precisamos de doses de realismo para lembrar que somos apenas humanos, não?

Projetar este atravessar de oceano, fez-me lembrar quem fui, um dia. Senti saudades de mim. Mas sei, que embora já tenha trocado de óculos algumas vezes, e continue com os mesmos dois graus de miopia, sei que aquele rapaz não existe mais. Eu me casaria com ele, e diria umas coisas duras a ele, e faria ele entender que eu não queria estar aqui hoje.

A cidade não me parece possível, você sabe. A cidade só seria possível se eu não fosse eu e você não fosse você. E Sampa, é possível?

Já tentei algumas vezes abrir esta caixa preta chamada futuro e só machuquei os dedos. Agora, decidi ficar por cá, um pouco mais pelo menos, e desistir da Cidade. Talvez, se não houver mais expectativas, se eu esquecer dos meus bolsos e chapéus, e o que cabe neles, talvez eu me surpreenda.

Você deve imaginar também que sei curtir a Cidade, apesar de toda a queixa. Já programei os ensaios ao ar livre que quero ver, as exposições, os dias no parque no verão Europeu. Já planejei tudo isto, e embora tenha esquecido de incluir neles a nostalgia e o silêncio, embora tudo isto, acho que não vai ser assim tão mal.

Não sei dizer o que há de errado agora, nunca soube. Eu acho que carregava comigo esta mesma sensação quando aí, deste lado. Talvez tudo seja apenas Eu. Ou o mundo chovendo desilusões sobre mim.

Um beijo, fique bem.

Mr B.

Wednesday, 31 December 2008

Outro Ano

Pra não dizer que não falei das flores, pensei em relatar umas cositas de 2008.

Terminei o mestrado.
Não me apaixonei por ninguém.
Chorei por me sentir vazio.
Aprendi a cultivar amizades.
Cortei 4 ou 5 vícios de romantismo em mim.
Aprendi a ser mais direto.
Disse a verdade de uma forma mais crua.
Beijei paredes.
Compreendi onde me encontro enquanto escritor.
Perdi laços com o país de onde vim.
Ganhei outros.
Enlouqueci em Amsterdam.
Chorei por Madrid.
E Barcelona. E Paris.
Disse não muitas vezes.
Dessisti do que não interessa.
Me fechei, me abri.
Cresci uns 4 ou 5 anos em 1.
Falei um monte de entrelinhas incompreensíveis aqui.
Li o blog de vocês que me lêem.
Estudei Espanhol. Dancei Tango.
Rodei a Cidade como nunca.
Me encontrei numa esquina.
Me perdi, me achei.
Peguei carona no sonho dos outros.
Comecei a escrever um romance.
E me apaixonei por um livro de dois capítulos
Que ainda não sei se consigo terminar.
De escrever.

Saturday, 13 December 2008

indignação




Me venderam como um animal de estimação por uns trocados. E eu nem sabia que estava à venda.

Thursday, 11 December 2008

menos 4 graus

se ao menos nevasse ;D

Friday, 28 November 2008

Thursday, 27 November 2008

Revolutionary Road

A trapaça do tempo se estampa inegável em cada um de nós. Não em prematuros sinais faciais, mas num nível de consciência que nos diz que o momento é agora, e que ficou tarde para algumas coisas. O peso dos anos não é algo sufocante, é um estado de auto-conhecimento, de domínio. Não há mais tempo para ser infantil ou irresponsável. Não há. Ou é assim que me sinto.

Lá na empresa, entre os e-mails que chegam do Japão ou da Alemanha, vejo-me subitamente comprometido com a eficiência de processos, discuto detalhes com o tradutor italiano, opino na arte do site com a designer, não mais com aqueles ares de artista, daquele garoto que um dia fui. Tudo necessita o meu Eu lá, a minha atenção mais convicta.

As traduções que faço agora precisam da minha revisão mais técnica e do meu apego maior à língua. Sou eu, marujo solto ao mar de papéis, tentando solucionar na minha cabeça, eu comigo, que destino seguir. Porque se você pensa desta forma quadrada sobre a vida e suas etapas lógicas, eu não. E não por vaidade ou charme, é porque esta rota já traçada por outros não me faria feliz.

Gastei cada centavo que tinha me perdendo neste mundo vão. Não há nada, nada, de que me arrependa. Eu vivi cada momento. E, no entanto, quarta tirei um extrato no banco e tinha 40 centavos na conta. Sim, há uma reserva que não quero mexer. Mas não é sobre isso ainda. O mundo é uma armadilha. Entra na roda eu e você. São as contas, o dia-a-dia, a rotina, e a nossa linha é escrita por quem mesmo?

Não quero de forma alguma uma ditadura capitalista me impondo regras, condutas, e quando penso em voltar ao Brasil, me vem claramente a noção de que eu fiz tudo o que queria, nos meus vinte e poucos anos. Tudo. Mas o tal ‘settle down’, a sua idéia de se acolher, de se aquietar não me agrada. Tento bolar estratégias para conservar a minha liberdade, estar à parte disso que vocês descuidadamente chamam de lar, trabalho etc.

Por isso, quando vi o trailer do Revolutionary Road no Youtube, abateu-me pensar que em alguns termos eu ainda sou aquele garoto revestido de mim mesmo. Conservo os ímpetos, mas ainda não encontrei a saída. Já assisti o trailer umas 500 vezes e mal lembro do livro, pois o li há tanto tempo. Lembro que a primeira parte é muito triste e foda. Lembro que o estilo oscilou no meu gosto e de que chorei por que aquilo me lembrou de ‘tulipas para a garota das rosas’, que é o meu conto favorito do Beijando Paredes.

O questionamento me pertuba mais porque sei que há nele traços da minha solidão. E porque não há ninguém para me dizer ‘I can make you happy here’.

Ps. A Nina Simone cantando é covardia.

Saturday, 15 November 2008

Little boy

Little, little boy
What paths have you stepped in?
Did you get lost or sucked in?
Did those guys make you feel down?
Did they turn your yellow into brown?

Little, little boy
Why is your sky so dark?
Why do your eyes lack spark?
Is your world that unfair?
Why can I smell despair in the air?

Little, little boy
Do not cry
Do no cry today
For the dawn is soon gone away.

Thursday, 13 November 2008

Numa noite fria de Novembro

Para ler ao som de Sinnerman – Nina Simone

Andando por Shepherds Bush, caía a neve, mas o meu coração me diz que ainda é Novembro. Talvez sejam as retinas, crostas de desamparo que já não se cabem no céu. O céu de Londres, cinza ou azul. Duro, sempre. Mas o problema não é a cidade, o problema sou eu (o problema é a Cidade, são todas as cidades do mundo).

Ao telefone confesso aos ouvidos mudos o meu maior desejo nas manhãs de sábado. A minha cama. Por dentro, tudo está lúgubre e soterrado. Hoje, vi distante uma casa em que costumava ir e recordei de você. De longe, as retinas cansadas não resistiram ao encanto da arquitetura gótica que identifica aquele lugar onde outras vezes eu te disse não. O problema não é as palavras, mas o que elas significam.

Ver a casa de uma certa distância, fora da nossa rotina apressada e crua, me fez reparar. Como quando, perdido nas ruas de Madrid, correndo em círculos para te encontrar, antes que você dessistisse e se fosse, tendo a impressão contínua de já ter passado por aquele lugar, todos os lugares, perguntava a todos ‘Donde está la calle, por favor?’; como quando te vi de novo. O céu morria tenso sem luar e eu lembrei instantaneamente de como o teu jeito de olhar, parar, caminhar, como tudo sobre você era admirável, a beleza das suas linhas harmônicas e descontruídas, o seu sorriso. Algo que já não prestava atenção enquanto corríamos pelas ruas de Londres, enlouquecendo nas nossas pirações de delírios absurdos e liberdade de pensamentos vanguardistas que não se aplicam mais a ninguém.

O coração sufocado pelo calor do verão da Espanha, aguardei você me fitar e aquelas palavras foram como uma arma apontada a mim, e atiraram palavras em outra língua, ‘es un maricon, te odio’. E desde então livrei-me de qualquer expectativa, de qualquer dor. Ando por aí, sem um sentimento qualquer. Abandono os amores de ontem sem guardar uma recordação que dure. E os ouvidos cansados ouvindo repetidas cartilhas já não entedem mais as minhas retinas, os meus olhos desvairados, que não conseguem inventar quando necessário, e não conseguem mais viver o momento quando preciso.

Thursday, 6 November 2008

Lições ao andar de bicicleta

Os passeios parecem mais altos. Não dá para pedalar e comer Falafel ao mesmo tempo. O trânsito anda nervoso (será o credit crunch ou a eleição de Barack Obama?) Faz frio, muito frio ao embalar nas ladeiras. Londres é feita para as magrelas, há estacionamento em cada canto. Eu ainda me viro bem. Se chover eu estou ferrado. O metrô e os ônibus perderam a graça. Ainda gosto de caminhar.

Wednesday, 5 November 2008

Fazendo as pazes com o frio

E os rastros do outono no chão. Degradês de amarelo e laranja que despencaram. As folhas.

Estes dias lá no trabalho, além das flores, as contra-mãos. Ganhei uma bicicleta e agora ando com tons de encanto pelas ruas de Londres. Look left, look right. E eu que pensei que seria frio demais para andar de bicicleta. Sinto-me uma criança embalanda pelo pedalar e encaro a Cidade com um sorriso maroto. Pedalo, pedalo, pedalo, uma sensação de liberdade incrível ao redor de Notting Hill, um daqueles momentos em que me pego pensando se a vida não poderia mesmo ser assim tão fácil, sem esta estória de contas, responsabilidades, metas. Se a gente não quisesse conquistar o mundo, um mundo sujo e perdido.

Thursday, 30 October 2008

Que se

Doem os meus pés. As minhas mãos. O meu nariz. De frio que entra pelo que não acorberto, de tão teimoso. Um frio cortante e surdo. Grito tão alto quanto posso, arranco os pulmões de mim para consumar a frase no ar: é Outubro. Não deveria estar tão frio, nem nevar. A última vez que nevou em Outubro foi 70 anos atrás. Então é assim, volto do Brasil, saio do calor de 36 graus e vem essa porcaria de frio me agasalhar, cobrindo o céu de um cinza mal-vindo.

Que se danem.

Os dedos sentem caimbras, ou será o cérebro? Eu, aqui, me sentindo o rapaz de 30 anos mais infantil do mundo, um ser que ainda tem crises de lugar. Viajar para mim nunca será sinônimo de. Eu cobiço. Eu quero mudar tudo.

Que se danem, eles.

E vejo os livros me encarando com as suas aparências perfeitas na minha estante. Para que diabos eu tinha de saber escolher? Levanto, jogo todos no chão, como uma mulherzinha, e depois choro, como uma mulherzinha.

Que se danem, elas.

Levanto para tomar um chocolate quente, e não há açúcar. Há coisa mais triste? Abro o armário do flatmate e ele aparece. Caralho, por que droga você não ficou no seu quarto?

I was just looking for sugar, I ran out, digo todo sem graça.
So did I, ele diz.

Há coisa mais triste que uma casa sem açúcar? Vou para o meu quarto, com o meu chocolate amrgo, pensando por que às vezes é tão difícil ser, e que eu queria ser invisível como você, desnecessário como você, que vem aqui com os seus passinhos pacatos e sorrateiros ler o diário dos outros, enquanto eu durmo do outro lado mundo.

Que se danem todos vocês.

Tuesday, 28 October 2008

Arrepios

Tão fria a cidade está que nem sequer tenho coragem de olhar o termometro.

Sunday, 26 October 2008

Incompreensões

A cidade e as suas linhas riscadas no céu. Outra vez, eu vejo Stella caminhar oferecendo ao vento o balançar do seu vestido, com aquele mesmo ar desencontrado. O cortar das ruas a faz querer guardar a cidade dentro de si. Como um refúgio para si mesma. Stella já partiu outras vezes, já chegou outras vezes, já aportou. Outras vezes.

Ela desvenda Amsterdam com olhos de garota. A estação de trem principal e suas direções todas. E já não sabe definir se o ar aqui é mais leve, ou mais pesado, de que substância o ar é constituído, agora. As vitrines e suas palavras incompreensíveis. Stella gosta de palavras, quanto maiores melhor. As vitrines se sucedem até o Red Light District, onde as vitrines refletem os seus olhos, em cada puta escancarada sorrindo um sorriso que Stella aprendeu faz tempo. Stella decide que nunca será uma puta em Amsterdam, porque Stella não quer viver de espera, e as vitrines são turvas visões de putas esperando caladas, sofrendo caladas. Elas e seus sorrisos.

Stella gosta de andar pela cidade. A cidade tem um ar que Stella agora resolveu chamar de. Mas não é isso ainda. Stella gosta particularmente de andar de metrô em Amsterdam, porque os trens atravessam o resíduo espacial e revelam os canais e não saem do chão. Não há de se subir escadas para se pegar o metrô de Amsterdam. Stella tem chão.

No desenrolar das esquinas, Stella quer o emprego da vitrine do bar. Mas Stella não quer mudar de vida, não quer ter que recomeçar. Stella não aguenta mais. O cansaço do mundo grudou todo no solado de Stella, e ela não sabe mais. Qual a substância do ar?

Tuesday, 14 October 2008

E(ssa) Cidade

Primeiros dias

A vista do aeroporto de Salvador é mesmo um sinal de boas-vindas. Bambus se entrelaçam, cobrindo o céu, conduzindo-nos até o extremo final que nos faz querer respirar o ar fresco da cidade numa noite de primavera. É o sinal que preciso para saber que estou em casa.

A casa brinca comigo, me sinto uma criança perdida. Já não sei onde se guarda as coisas, ou as coisas se guardam em outros lugares. Uma mistura de estranhamento e memória. Saio, à noite, as ruas parecem desgastadas, as pessoas de repente me parecem todas iguais. Quero dançar e me restam poucas opções em Salvador. Lá, onde vou, o único lugar que me diz nesta noite, já não me sinto parte de nada – eu acho que nunca me senti parte; preciso de doses de alcool para adormecer o pensamento.

Talvez estes quatro anos morando no exterior tenham me dado algo que eu não sei contar. Os meus grandes amigos se mandaram também, e os poucos conhecidos com quem esbarro pelo caminho, mal querem papo. Não estou certo se intimido ou desagrado. Mas eu nunca estive tão confortável com o fato de ser quem sou.

Andando pela Barra, vendo a orla se revelar, acho tudo muito bonito e triste. A cidade deixou de ser minha no dia em que pisei aqui, desde sábado passado. Os meus gestos, valores, modo de agir e pensar refletem outra cultura. Estranho esta completa distância, o fato de ver uma cidade se movimentando no seu dia-a-dia de longe, e isto permite que eu entenda quem fui, as minhas motivações mais básicas, padrões de reações. O meu estranhamento passado, quando eu vivia aqui e não era nada disso. E era tão isso e não sabia.

A cidade e eu estabelecemos uma relação infantil, que me faz lembrar de uma música boba que diz assim ‘I keep falling in and out of love’. Às vezes, penso que morar aqui de novo seria o maior barato. Provar da sua alternatividade, ter a companhia de pessoas que adoro, estar à parte do que não interessa, dançar seu ritmo nervoso, a sua necessidade de congruência presente numa geração que cresce a meia-luz.

Outras, quando deparo com a suas deficiências, o seu antiquado modo, a sua dependência dos EUA, a sua ligação excessiva a super-estruturas, como religião e tradições passadas, me fazem querer correr para o aeroporto. Tento, em vão, ver a Cidade como uma anfitriã que me recebe de braços abertos, e curtir os dias sem análise, crítica ou opinião. Ainda bem que nada é tão urgente assim, que ninguém me ouve.

Deixe a Cidade seguir sem mim.

Tuesday, 7 October 2008

2nd class stamp

Dear Ana,

Resolvi, desta vez, percorrer outros caminhos, fugir das cidades grandes, destes aglomerados de seres apressados. Ficarei estes dias só na Bahia, vendo o pôr-do-Sol do Farol e as estrelas da noite de ontem. Depois, irei ao Sertão, buscar a simplicidade em si.

Não me aguarde para o café ainda, apesar de maturar em mim um desejo de ir-me para Sampa de vez. Sinto que a hora não é agora. Londres está me seduzindo com outros ares que respiro hipnotizado sem pensar ao sair do trabalho e subir a Portobello Road.

Tomei banho de mar hoje após dois anos. Essa pele nova que se apodera de mim é tão auto-explicativa que até me assusta. Parece que agora eu me entendo, pescando frases soltas no ar, corredores de opiniões alheias e olhos estranhos.

Eu vim aqui porque aonde quer que eu more agora, eu vou morar em mim. Um ser aprisionado em si mesmo.

Thursday, 2 October 2008

Mensagem para a minha família

Hi Guys,

Hope all is well. I have been looking up the details for arrival and the scheduled time is shown as 17:45. I won't have a penny, cause all my cash will be in GPB. So if you could take 2 Reais with you to buy me an Acarajé, I would be sooo glad, I could weep. Hehehe

Love,
Breno

Sunday, 28 September 2008

Contra-tempo

Acordei hoje e me abate a sensação de que algo ficou para trás. Leve, o ritmo da vida se expande como se tudo retornasse ao ponto original. Houve um tempo em que duvidei que aquele lugar no espaço significasse algo que agora quase posso tocar. Como se concreto ou real.

Com o final do mestrado, e uma tese em que precisei usar os meu dotes de design gráfico para tornar interessante, e me desculpar pela falta de pesquisa – que deve ter sido maior do que a maioria dos colegas, mas é pouco para mim – os dias ganham uma amplitude que já desconhecia. Acordei e nada havia de ser feito, razão nenhuma para estudar, ou o-que–quer-seja. Era só este pleno e amplo vazio do momento atual que nos faz pensar. E pensar é bom.

Abri o meu portifólio, abandonado numa gaveta, e reli as minhas palavras de redator de publicidade. Olhos muito atentos. E de repente, pensei na fluência das frases se conectando, o tom crescendo e variando, entre as objetividades e requerimentos de cada campanha. E pensei quase surpreso que aquilo era bom, muito bom, que eu nunca estive muito enganado sobre este dom, este instinto, esta linha de pensamentos que correm dos meu dedos para o teclado. E, claro, senti saudade de mim.

Quando era redator, uma vaga sensação de que aquilo não era trabalho, emprego, carreira, me assombrava. Parecia-me mais um contra-tempo, porque eu pouco lia sobre marketing, e eu tentava transformar os textos em algo puramente bem escrito, altamente bem escrito. E eu não sabia um quinto do que agora eu sei, e ainda assim questiono se não daria tudo no mesmo, se o foco importará mais do que a sedução em si, a sedução da idéia e sua execução.

Resolvi que quando chegar ao Brasil, imprimirei as traduções e adaptações de propganda que realizei. Montar um novo portifólio e esperar que o destino me leve daqui, talvez num navio que passe por Barbados e onde eu possa me sentir sozinho, antes de me reencontar. Andando pelas ruas de Fulham na madrugada da quinta-feira passada, compus uma oração de mim mesmo que começava assim:

Permita que eu nunca me perca de mim
Que eu não me afaste de mim
Que eu esteja comigo
Que eu me encontre todos os dias
Desde a manhãzinha até o anoitecer.
Que eu não me abandone mais
Porque eu preciso de mim comigo.

Enfim, um texto que já escapoliu da memória e que eu não passei para o papel porque eu sou um bobo. E é um texto sobre andar perdido de si.

Lendo algo que um amigo mostrou, veio-me este impulso de querer escrever de novo, de me entender e me explicar para mim mesmo em palavras. Porque eu quis mudar o texto, mover os adjetivos, fazê-lo crescer, e fechar. Eu penso que pela primeira vez me dei conta que não é tão fácil escrever, transpassar os medos, expor-se e ser profissional. Acho que foi a Clarice que disse que não queria ser escritora depois de escrever um tanto de livros. E ela se referia ao engomo, ao processo de vaidade e falta de vivência que leva alguns escritores a serem mais-do-mesmo e regurgitar. Eu tenho medo disto. E eu sou outra pessoa.

Conversando com ele, me dei conta de que eu devo ser um escritor, pelos palpites, pelo olhar, pelo instinto. Há algo em mim que sempre vai estar lá. Eu sei. Só que me recuso a escrever, pois eu não sei me expor mais, eu envelheci. Acho que foi isto, o ímpeto.

Arrumei o quarto como há tempos não, cortei o cabelo, botei a roupa toda para lavar. O quarto continua meio bagunçado. O cabelo curto pede que eu faça a barba, que resiste. E as roupas se pintaram de outra cor após serem lavadas com uma calça preta que destinturou. Preciso decidir se ganhei um guarda-roupa novo, ou perdi. A bermuda caqui pintou-se azul, a toalha amarela, de verde, a camiseta branca e rosa, de cinza e rosa. As cores da minha vida são outras, eu não as convidei, mas elas me fazem querer escrever, de novo, como se fosse preciso, como se fosse a única coisa que faz sentido agora.

Um livro sobre mim. Eu longe de mim perdido neste mundo dos outros.

(Para ler ao som de The First Time Ever I saw your face, cantada por Leona Lewis).

Saturday, 9 August 2008

Essa calma

De onde vem essa calma que eu desconheço? Por que será que de repente eu me olhei no espelho e me vi, tão real, os olhos quase tímidos diante de mim mesmo? Os dias frios ou quentes, neste verão sem memória, de Sol banhado pelo vento do Oeste que sempre me faz pensar nas pontes quando anoitece.

Um caminhar pisando em cada pedra esquecida nas ruas, o ar quase convidativo de todas as portas que se abrem, o meu sorriso. Memórias que se corrigem, e eu vi você, e nada mudou, e o meu olhar apontado como uma lança que busca projetos de longo-prazo, uma serenata de fatos tão entrelaçados que nem sequer ouso questionar. Existe mesmo este papo de destino?

Hoje amanheceu chovendo, eu quis te contar. E quis dizer que recusei todos os convites para sair, eu quis estar só. Agora eu me lembro como éramos bons amigos, eu e a minha solidão, o exercício da minha própria personalidade. Agora, que o desespero perdeu o seu lugar. Leve é um adjetivo que eu sempre cultivei.

Outros tempos. Volto a dar a mão a minha solidão, bem-vinda. Acordo, tomo um banho na sua casa, seja você quem for, e me vou. Para os braços da minha amada, a minha solidão. A solidão de quem espera pelo pôr-do-Sol atrás do seu próprio eu, o meu de-dentro. Eu comigo mesmo, porque esse papo de amor é mesmo coisa de cinema, não?

‘Vou deixar a rua me levar, ver a Cidade se acender’.